segunda-feira, maio 17, 2004


Por Paul Majendie

CANNES (Reuters) - "Fahrenheit 9/11", o filme do norte-americano Michael Moore que apresenta uma crítica contundente às políticas do presidente dos EUA, George W. Bush, no Iraque e na luta contra o terror, foi recebido com entusiasmo na segunda-feira pela crítica no Festival de Cannes.O filme, de cortes rápidos, é o trabalho de um diretor cuja preocupação em criticar Bush transparece em cada quadro.

Dois anos atrás, Moore lançou o documentário "Tiros em Columbine", no qual atacava o lobby pró-armas dos EUA. A produção conquistou as manchetes do Festival de Cannes, arrecadou 120 milhões de dólares em todo o mundo e rendeu-lhe um Oscar.

"Fahrenheit 9/11" já havia sido alvo de um furor nos meios de comunicação de todo o mundo depois de a Walt Disney Co. ter barrado a Miramax, unidade de filmes da empresa, de lançar uma obra tão politicamente polarizada em um ano de eleições no país.

A produção concentra-se em avaliar como os norte-americanos e a Casa Branca responderam aos ataques de 11 de setembro de 2001 e traça ligações entre a família Bush e as famílias ricas da Arábia Saudita, entre as quais a de Osama bin Laden.

A tela fica escura. Ouve-se o barulho dos aviões colidindo com as Torres Gêmeas do World Trade Center (em Nova York). Depois, o lamento das vítimas é contrastado com Bush sentado, aparentemente impassível, por nove minutos em uma sala de aula da Flórida depois de ter ouvido a notícia sobre os ataques.

Em Washington, o diretor sai atrás de deputados e senadores nas ruas. "Não há muitos congressistas com filhos lá (no Iraque). Na verdade, há apenas um. Talvez vocês devessem ter enviado seus filhos primeiro", diz antes de perguntar: "O que você acha dessa idéia?"

terça-feira, maio 11, 2004

Dica maravilhosa da não menos maravilhosa Mônica

De quem é esta música?

Dis-mois comment


Ah, si nous ne savons plus quelle heure il est
Si c'est mardi, si c'est le mois de mai
Alors dis-moi comment je dois partir

Si pour t'approcher
J'ai parcouru des routes dérobées
Les ponts derrière moi je les ai tous coupés
Où désormais pourrai-je revenir

Si nous, dans le ballet de nos nuits éternelles
Avons mêlé nos jambes, dis-moi quelles
Seront les jambes qu'iront me conduire

Si c'est dans ma peau que tu prends ta chaleur
Si dans le charivari de ton coeur
Mon sang s'est égaré, trompé de veine

Si dans le désordre de ta garde-robe
Voilà ma veste qui embrasse ta robe
Et mes chaussures qui se posent sur les tiennes

Si on ne connaît pas le mot de la fin
Si dans mes mains je garde encore tes seins
Avec quel masque puis-je m'en sortir

Non, tu ne peux pas rester là, l'air de rien
Je t'ai donné mes yeux, tu le sais bien
Alors dis-moi comment je dois partir

Nova e muito legal,dica do Pulso Único

segunda-feira, maio 03, 2004

Este artigo é de Flávia Oliveira, jornalista que esta substituindo L.F.Verissimo, no Globo.

Perguntem à Rocinha!


A explosão de violência que marcou o fim da quaresma na Rocinha detonou um rumoroso debate em torno das ações necessárias para devolver a paz à região e, por extensão, à Cidade Maravilhosa. Cariocas de nascimento ou por opção, pressionados pelos dias tensos que resultaram em uma dúzia de mortes, apressaram-se em apresentar propostas, entre elas um estapafúrdio muro separando favela e bairro, um solitário dia de manifestação de afeto à comunidade e um ambicioso plano de reurbanização. Por mais sinceras que sejam as idéias, faltam nelas o essencial: a assinatura da Rocinha.

O povo do asfalto, encarnado nos ricos e na classe média que habita São Conrado e Gávea, horrorizou-se por tornar-se refém nos automóveis impedidos de cruzar o Túnel Dois Irmãos e a Avenida Niemeyer. Enlutou-se pelo fuzilamento da mineira Telma Veloso Pinto. Protestou por suas crianças sem aulas nos colégios bem pagos dos arredores. Frustrou-se com a queda à metade nas vendas no shopping center vizinho.

Por fim, apiedou-se da Rocinha. Como se o nome no diminutivo fizesse dela minoria. Aos moradores de São Conrado e Gávea não ocorreu que a maioria vive na Rocinha. Está no Censo. No ano 2000, a comunidade encravada no morro que deságua na Auto-Estrada Lagoa-Barra abrigava pouco mais de 56 mil pessoas. Em São Conrado viviam cerca de 11 mil; na Gávea, 17 mil.

Em sua última entrevista antes de deixar o Brasil, o moçambicano Rogerio Zandamela, que até um mês atrás representava no país o Fundo Monetário Internacional (FMI), explicitou suas impressões sobre a desigualdade brasileira. Com a experiência de quem conheceu variadas nações - da África à Europa, da América à Ásia - sugeriu que o abismo que separa ricos e pobres no Brasil é peculiar e, como tal, demanda uma solução genuinamente nacional.

Democracias invejadas mundo afora tornaram-se mais igualitárias desenvolvendo políticas públicas para minorias. No Brasil, comentou o economista, não está claro que a desigualdade é uma questão de minorias. Zandamela lançou mão da prudência característica dos estrangeiros que servem aos organismos multilaterais e preferiu não explicitar o que São Conrado, Gávea, Rio de Janeiro e o Brasil só não enxergam se não quiserem.

Nenhum indicador demográfico ou socioeconômico aponta a desigualdade, a pobreza, a miséria, a violência - na Zona Sul do Rio ou em qualquer metrópole brasileira - como questões de minorias. As estatísticas do Instituto Pereira Passos (IPP) e do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS-FGV) evidenciam que, no território que engloba os bairros de São Conrado, Gávea e Rocinha, a comunidade do morro contém a maioria das casas sem rede de esgoto ou fossa séptica (37%); a maioria dos analfabetos funcionais (47,5% têm até três anos de estudo); a maioria dos miseráveis (22%); a maioria dos chefes de família com renda de até cinco salários-mínimos (76%). Concentra a maioria dos homicídios e tem esperança de vida 20 anos menor que a Gávea.

Não é certo o vértice superior debater e decidir sobre uma crise que mais agride os dois terços que estão na base da pirâmide social daquele pedaço do Rio. A Rocinha tem o direito de se horrorizar pelos moradores obrigados a não voltar para casa nos dias de guerra. De se enlutar pelos filhos executados à queima-roupa em suas vielas. De protestar pelas escolas e as creches fechadas. De se frustrar pelos feriados impostos ao seu pequeno comércio. De se apiedar dos vizinhos. E de cobrar do poder público as medidas que a convenham para pôr fim à situação de insegurança que a atormenta.

Antes de reivindicar das autoridades as políticas; do setor privado, os investimentos; da sociedade civil, a mobilização, é recomendável ouvir o que tem a dizer a maioria. E quem sabe esse trecho do Rio, em vez de miniatura da metáfora do bom selvagem, venha a se tornar um exemplo inovador não apenas para os cariocas, mas para o país.